domingo, 24 de agosto de 2008

Estando morto, ainda fala...

Meu Pai, Minha Bússola

Valdevino José da Costa nasceu em Carangola, Minas Gerais, em 25 de agosto de 1917. Filho de pai português e mãe brasileira, desde muito cedo aprendeu a se virar sozinho.

Não teve uma infância fácil.

Foi separado da família ainda muito jovem.

Viu um de seus irmãos ser puxado para dentro do rio por um jacaré. Quase morreu afogado. Viu seu pai ser preso porque queria a guarda dos filhos. Cuidou de seus irmãos, cuidou de seus filhos, cuidou de seus sogros, cuidou de seus amigos...

Ficou 55 anos sem ver uma de suas irmãs. Lembro-me muito bem quando meu irmão mais velho, Silas, aproveitando um antigo programa radiofônico, denominado "Onde Anda Minha Gente", saiu a procura da Tia Sebastiana.

Tinha 12 anos quando num belo dia, eles chegaram. Foi uma festa, foi emocionante. O reencontro de meu pai e minha tia ficou gravado em minha memória como se fosse ontem. Lembro até da roupa que eu vestia.

Meu pai não gostava muito de falar de suas histórias, de seu passado.

Sempre se emocionava e sua voz terminava embargada. Mas nós gostávamos de ouvir.

Não perdíamos a chance de insistir para que contasse.

Falava muito do seu querido Rio Doce e da última vez que viu seu pai.

Era um homem belo, de caráter incomum.

Quando nasci meu pai tinha 50 anos e um abismo temporal nos separava. Mas, isso não impediu que o amasse, que o venerasse.

Meu pai jamais desistia de seus objetivos.

Acho que ele andou de bicicleta desde que nasceu, pois uma das imagens mais nítidas da minha infância era a de meu pai e sua bicicleta. Tinha uma caixa de madeira no porta-embrulhos da bicicleta e ali ele me carregava para todos os lados. Uma vez comprou uma daquelas cadeirinhas que ficam presas no guidão e ali eu fui confortavelmente instalada.

Era festivo e alegre.

Nós o adorávamos.

Incansável, não media esforços para ajudar alguém, ainda que isso o prejudicasse.

Meu pai passou quase toda a sua vida como lavrador e conseguiu criar dez filhos com seu pequeno salário.

Sua força motriz vinha de Deus.

Aos seis anos, mais ou menos, tivemos que nos mudar de Piranema, onde residíamos, para Senador Camará, bairro da Cidade do Rio de Janeiro.

Minha mãe não suportou a morte de minha irmã, Cenyr, de 16 anos. Mas essa é outra história de nossas vidas.

Nos mudamos. Meu pai nos visitava todo o final de semana. Ele chegava sempre com o bolso cheio de balas e bananadas.

Todas as segunda-feiras, quando acordava para se aprontar, mais ou menos às quatro da manhã, eu acordava junto e ele não saia sem jogar uma partida de dominó comigo.

Lembro de andar enganchada nos seus ombros a caminho da igreja, no Taquaral.

Mas a separação não durou muito. Voltamos para Piranema.

Meu pai foi exemplo em todos os seus negócios, em todos os atos.

Adorava a vida rural.

Ficou casado com minha mãe por 61 anos.

No final de semana anterior a suas morte, sonhei que alguém me ligava e avisava que meu pai havia morrido. Fiquei incomodada. Fui até sua casa e passei com ele um sábado inteiro.

Tomei do seu café delicioso. Sempre que me via chegar ia ao meu encontro no portão e me abraçava. Dizia: "minha filha, que saudade"!

No dia 1º de julho de 2004, alguém me ligou e disse que meu pai havia morrido.

Não podia ter nascido em data diferente. Dia do Soldado. Era um deles, guerreiro.

Meu pai, minha bússola.

Segundo Beecher, quando um homem bom desaparece, o céu desse mundo ainda continua iluminado por muito tempo depois de sua partida. A figura de um homem assim não se apaga deste mundo. Quando vai, deixa na terra muito de si.

Pai, mesmo estando morto, ainda vive em meu coração, ainda me guia pelas estradas da vida. Suas palavras e ensinamentos ecoam em meus ouvidos.

"Velho, o tempo está aqui...
Na filha que é teu renovo, de novo a vida se fez..."

Feliz Aniversário!


8 comentários:

Bia disse...

Raquel, que lindo tudo o q vc escreveu... Isso é um dom seu, nunca pare!! Eu fiquei realmente emocionada... Amanhã será um dia saudoso pra vc, pois, como pude ler aqui, seu pai faria anos...Mas como dizem, quem disse que para estar junto precisa estar ao lado? Basta estar do lado de dentro, ñ é mesmo?
Parabéns pelo blog!
Beijinhos da sua aluna
Bianca Vieira(MG).

Professora Raquel Tinoco disse...

Obrigada Bia. Sim, amanhã será um dia saudoso. Meu pai era e é alguém muito especial na minha vida. Mas sei que ele está bem e sua imagem é aterna em mim, enquanto eu viver. obrigada. Beijos

ccarlacampp disse...

Imagino que vc ao ler o que eu vou escrever vai abrir um sorriso e dar aquela sua gargalhada contida, mas gostosa...
bom o que eu digo é que vc é uma contadora de histórias nata...vc nunca pensou em escrever de fato??? sei que vc se realiza numa sala de aula, mas sempre acreditei que temos várias aptidões e que nada nos impede de vivê-las ao mesmo tempo. Pensa nisso... vc deveria escrever...vc escreve com alma, com vida é por isso que vc emociona quem lê suas palavras.
Que coleção de histórias bonitas vc tem...
beijo de quem te admira muito!
Carla

Professora Raquel Tinoco disse...

Já pensei nisso. Meu primeiro livro seria justamente sobre o meu pai. Mas vou pensar com mais carinho. Beijos

Eliane disse...

Não tenho palavras pra tal história...Só Deus sabe o quanto eu o amava e continuo amando...ainda guardo com muito carinho a minha primeira bíblia, foi ele quem me deu!!!!

Eliane Costa

Professora Raquel Tinoco disse...

Oi Eliane. Que bom me visitar!!! Sim, seu avô é aquele marco nas nossas vidas. Aquele que, quando surgem as tempestades, faz-se farol e ilumina nosso caminho.

gabriel disse...

Olá professora!! Fiz dúzias de módulos de direito eleitoral com você . Super bacana seu blog e linda a homenagem ao seu pai. Hoje estou no Tre-RJ e com grande ajuda sua!! Beijos,

Lucia

Professora Raquel Tinoco disse...

Oi Gabriel. Que bom!! As dúzias de módulos o ajudaram. Deus o abençoe nessa nova etapa. Obrigada. Bjs

Tudo começou quando...

meus sobrinhos, e não são poucos, resolveram fazer concurso para o Tribunal de Justiça.

Eu já estava trabalhando como Auxiliar Judiciário, aprovada no concurso de 1993. Pediram-me que desse aulas.

Então nos reuníamos na casa de um deles aos finais de semana e estudávamos. Comecei a elaborar apostilas que eram chamadas por eles de "apostilas da Que-Quel".

Ah, devo dizer que também não foi fácil pra mim.

Sou caçula de uma família com dez filhos.

Meus pais, muito humildes, não podiam fazer mais do que faziam. Todos tivemos que nos virar muito cedo.

Mas eles estavam ali.... movidos de esperança. Me ensinaram que nunca devemos desistir dos nossos sonhos, não importa quantas vezes choremos... não importa se não chegamos em primeiro lugar... não importa se não alcançamos nossos alvos na primeira tentativa... não importam as adversidades... apenas continuem, dizia meu pai. E o via ali, praticando, ele mesmo, tudo o que ensinava.

E segui.

E então, como dizia, comecei a elaborar apostilas que foram ficando famosas... rsrs


No Fórum onde trabalhava, os colegas começaram a pedir que desse aulas. Mudei o local para minha casa e começamos a estudar.

E veio o concurso de 1997. Prova difícil.
Não obtiveram o êxito esperado. Mas não desistimos.

E veio o concurso de 2001. Estava já há algum tempo no TJ e resolvi que precisava mudar de cargo. Precisava passar para Analista. O que fazer? Pedi um mês de licença-prêmio e me tranquei em casa.

Prestem atenção. Tranquei-me!!! O tempo jogava contra mim. Minha licença foi deferida para 1º de julho de 2001 e a prova seria vinte e um dias depois.


Passava os dias lendo Codejrj e Estatuto e gravando a minha própria voz para escutar mais tarde, enquanto fazia outras tarefas.

Estudei o que pude, como pude.


E aí... em 2001 fui aprovada para Analista Judiciário (antigo Técnico Judiciário Juramentado). Gabaritei as questões de Codjerj e Estatuto.

Pouco tempo depois, estava trabalhando, quando um amigo, Vinícius, sabendo que eu havia gabaritado essas matérias, me convidou para dar aulas em Campo Grande-RJ.

Fui, morrendo de medo. Frio na barriga. Mas fui...

Lembra?? Jamais desistir!


Parece que gostaram... Daqui a pouco, ele mesmo , Vinícius, ao ser convidado para dar aulas em um curso da Barra, indicou meu nome para substituí-lo.

E lá fui eu... e assim, foram conhecendo meu trabalho.

Logo, estava sendo convidada para outro curso... e outro... e outro...


E tenho dado aulas desde então. A cada concurso, um novo desafio.

As apostilas da "Que-Quel" foram transformadas em apostilas da Professora Raquel Tinoco.

Amanda, minha sobrinha, está hoje no TJ-PR.

Outros sobrinhos seguiram rumos diferentes, sempre em frente, sempre na direção de seus sonhos. Estão chegando lá.


Meus alunos se tornaram meus amigos e isso me faz seguir.

Meu maior incentivo?? É acompanhar cada resultado e torcer por:

Admares, Alessandras, Alexandres, Alines, Amandas, Andréias, Andrezzas, Anicks, Arianes, Biancas, Bias, Brunos, Calixtos, Carlas, Carlos, Carlinhos, Carolinas, Carolines, Cidas, Christians, Constanças, Cristianes, Daniéis, Danielles, Deises, Denises, Diogos, Drês, Dris, Eneas, Fabíolas, Fábios, Fernandas, Filipes, Flávios, Freds, Giselas, Giseles, Ghislaines, Glórias, Hannas, Henriques, Ianos, Ilanas, Isabéis, Isabelas, Israéis, Ivanas, Ivans, Izadoras, Jackies, Jacques, Janes, Joões, Jeans, Julianas, Kayenes, Kátias, Lenes, Léos, Lúcias, Lucianas, Ludymilas, Luízas, Luzias, Magnos, Marcelas, Marcélis, Marcellas, Marcelles, Márcias, Marcys, Marianas, Marias, Megs, Meles, Mônicas, Patrícias, Pattys, Paulos, Pedros, Pritzes, Rafas, Rafaéis, Raphas, Raquéis, Renatas, Renées, Robertas, Robertos, Rodrigos, Rogérias, Silvanias, Simones, Sérgios, Suelens, Suellens, Tassianas, Tatis, Vanessas, Vicentes, Wilsons....

Deus os abençoe.

não desista!

não desista!

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