domingo, 23 de novembro de 2008

Adson... Presente.

Era 23 de julho de 2006. Um domingo. Eu estava dando aula para o TRE-RJ, na Barra da Tijuca. Meu telefone não parava de vibrar dentro da bolsa. Não atendi. Estava dando aula. Não podia atendê-lo naquele momento. Ele insistia. Eu já estava incomodada. Abri a bolsa enquanto falava e vi que era um número de Magalhães Bastos, de algum membro da igreja em que congreguei.

Desconsiderei. Depois retornaria a ligação.

O telefone continuou. Ignorei.

Pensei. Se fosse de alguém lá de casa eu atenderia, podia ser alguma coisa com minha mãe. Mas não era. Continuei dando aula.

Eram 17 horas e alguns minutos quando a aula terminou e eu pude sair e enfim, olhar o celular. Havia vários números, de diferentes locais. Comecei a me assustar. Liguei para minha cunhada. Era um dos números gravados.

Congelei. Devia ser uma brincadeira. A notícia que ela estava me dando só podia ser mentira!!! Mais um trote de alguém!!! Um trote da vida!!! Mas não era qualquer pessoa!!! Era minha cunhada!!! Não brincaria com isso.

Adson sofreu um acidente e disseram que ele morreu. Eu não conseguia andar. Fiquei assim por alguns momentos. Nem sei quanto tempo. Eu não acreditava. Precisava perguntar à outra pessoa. Quem sabe minha cunhada não tinha se enganado...

Liguei para minha sobrinha Débora e ouvi a confirmação do inacreditável. "É verdade, Raquel. Adson está morto".

As lágrimas logo surgiram e ali mesmo, onde estava, sentei e chorei. Estava só. Precisava ir para casa. Como conseguiria? Da Barra a Guapimirim é um longo trajeto. Chorava copiosamente e ainda assim não acreditava.

Adson era um de meus sobrinhos. Hoje, ele faria 30 anos.

Cheguei em casa, abri uma de suas fotos e ali fiquei, acariciando com o mouse, seu rosto, como tinha feito no sábado anterior, no curso, mostrando sua foto aos amigos. Foi um instante de despedida.

Naquele instante, pensei, calou-se o acorde do violão... Calaram-se os ra-ta-ta-tas daquela bateria.

Adson se foi.

Mas eu não esperava o que viria. Fui à sua página do orkut e escrevi minha despedida. Disse a ele que o amava e que sentiria muito, muito mesmo sua falta.

A página de recados do orkut começou a se encher... recados... mais recados... mais recados... pessoas de todo o lugar, amigos... pessoas que nem o conheciam... pessoas agradecidas... pessoas saudosas... depoimentos de seus companheiros de quartel... pessoas que foram tocadas por sua vida.

Vi pessoas que o agradeciam por não terem se matado... pessoas que o agradeciam por ter orado por elas... pessoas que o agradeciam pelo sorriso... e os acordes... os acordes do violão voltaram aos meus ouvidos... os sons da bateriam ressoaram... Adson está vivo... mais vivo do que nunca!!!

E é assim, meu amor, que me lembro de você. O sorriso franco e aberto. A gargalhada sonora que enchia o ambiente.

Lembro das muitas viagens no carro do seu pai, em que sentávamos apertados, os quatro, no banco de trás e iámos a cada curva, caindo uns sobre os outros, a ponto de enfurecer o Edson.

Lembro dos dias lá em casa em que você estudava e eu o ensinava.

Lembro das noites no msn em que gargalhávamos com as piadas de pontinhos.

Lembro da sua essência... lembro da persistência, do sonho alcançado.

Adson, como muitos concurseiros, era dotado de uma memória ótima. Aprendia rapidamente, mas era muito ansioso. Chegava a hora da prova e lá ia todo o conhecimento junto com a ansiedade. Mas não foi assim quando perseguiu seu sonho.

Adson queria ser sargento músico do corpo de fuzileiros navais. Tentou a primeira vez, não passou. Não desistiu. Tentou a segunda vez e veio a realização do sonho.

Lembro-me, até hoje, do dia em que foi agradecer ao Senhor pelo sonho conquistado. Acho que chorei mais que você. Lembro-me do abraço apertado, das nossas lágrimas...

Ah, Adson... Adson... Adson... para mim, você continua aqui. Sua página do orkut está ali nos meus aniversariantes. Seu e-mail entre os meus contatos do msn. Você é fonte de inspiração.

Sua música, pois acabou sendo para mim, o seu tema, ouço-a de vez em quando. Para matar a saudade. Hoje quero compartilhá-las com meus alunos.

Seu poema, escrito por seu professor, também está aqui.

Sabe Adson, você nem mesmo sabia que iria tão cedo. Mas viveu e lutou por seus sonhos como se fosse estar entre nós para sempre.

Sua firmeza de caráter, sua generosidade, sua alegria eram contagiantes.

Hoje, Adson, meu amor, não é dia de tristeza, não é dia de dor, embora teimem em querer se instalar. É dia de celebração!!! Celebração da vida!!! Celebração da sua vida!!!


Adson, até breve.






Foto 1: Adson tocando violão no Curso M&G
Foto 2: Adson ajudando a cortar o cabelo de crianças carentes no Vale do Jequitinhonha - MG
Foto 3: Adson no Banda de Fuzileiros Navais
Foto 4: Adson com Gabriel, seu sobrinho e meu sobrinho-neto em Guapimirim

4 comentários:

kleber disse...

acredito que pelas palavras da Raquel ele foi alguem que soube conquistar o seu espaço aqui entre nós... e que seus familiares apesar da saúdade saberão que onde ele estiver, estará realizando muitas outras conquistas...

Professora Raquel Tinoco disse...

Olá Kleber. Obrigada. Sim, o Adson foi muito, muito especial. Aliás, é. Cremos firmemente que ele está ao lado de Deus e que um dia nos reencontraremos. Abraços.

Hélio Paiva disse...

Sinto por sua perda. Pelo texto sinto que seu coração não está repleto de dor e revolta, mas de amor e de uma saudade que nos traz um leve sorriso aos lábios. Acredito que isto está trazendo um grande conforto ao seu sobrinho querido.
Um forte abraço;
Seu fã,
Hélio

Professora Raquel Tinoco disse...

Oi Hélio. Sim, não há revolta. Há apenas saudade. Aprendi desde cedo a não lutar contra o inevitável. Revoltar-se pela morte de alguém é esquecer a o quanto esse alguém foi especial em vida. Ainda mais quanto cremos que é apenas uma questão de tempo para nos reunirmos novamente. Beijos

Tudo começou quando...

meus sobrinhos, e não são poucos, resolveram fazer concurso para o Tribunal de Justiça.

Eu já estava trabalhando como Auxiliar Judiciário, aprovada no concurso de 1993. Pediram-me que desse aulas.

Então nos reuníamos na casa de um deles aos finais de semana e estudávamos. Comecei a elaborar apostilas que eram chamadas por eles de "apostilas da Que-Quel".

Ah, devo dizer que também não foi fácil pra mim.

Sou caçula de uma família com dez filhos.

Meus pais, muito humildes, não podiam fazer mais do que faziam. Todos tivemos que nos virar muito cedo.

Mas eles estavam ali.... movidos de esperança. Me ensinaram que nunca devemos desistir dos nossos sonhos, não importa quantas vezes choremos... não importa se não chegamos em primeiro lugar... não importa se não alcançamos nossos alvos na primeira tentativa... não importam as adversidades... apenas continuem, dizia meu pai. E o via ali, praticando, ele mesmo, tudo o que ensinava.

E segui.

E então, como dizia, comecei a elaborar apostilas que foram ficando famosas... rsrs


No Fórum onde trabalhava, os colegas começaram a pedir que desse aulas. Mudei o local para minha casa e começamos a estudar.

E veio o concurso de 1997. Prova difícil.
Não obtiveram o êxito esperado. Mas não desistimos.

E veio o concurso de 2001. Estava já há algum tempo no TJ e resolvi que precisava mudar de cargo. Precisava passar para Analista. O que fazer? Pedi um mês de licença-prêmio e me tranquei em casa.

Prestem atenção. Tranquei-me!!! O tempo jogava contra mim. Minha licença foi deferida para 1º de julho de 2001 e a prova seria vinte e um dias depois.


Passava os dias lendo Codejrj e Estatuto e gravando a minha própria voz para escutar mais tarde, enquanto fazia outras tarefas.

Estudei o que pude, como pude.


E aí... em 2001 fui aprovada para Analista Judiciário (antigo Técnico Judiciário Juramentado). Gabaritei as questões de Codjerj e Estatuto.

Pouco tempo depois, estava trabalhando, quando um amigo, Vinícius, sabendo que eu havia gabaritado essas matérias, me convidou para dar aulas em Campo Grande-RJ.

Fui, morrendo de medo. Frio na barriga. Mas fui...

Lembra?? Jamais desistir!


Parece que gostaram... Daqui a pouco, ele mesmo , Vinícius, ao ser convidado para dar aulas em um curso da Barra, indicou meu nome para substituí-lo.

E lá fui eu... e assim, foram conhecendo meu trabalho.

Logo, estava sendo convidada para outro curso... e outro... e outro...


E tenho dado aulas desde então. A cada concurso, um novo desafio.

As apostilas da "Que-Quel" foram transformadas em apostilas da Professora Raquel Tinoco.

Amanda, minha sobrinha, está hoje no TJ-PR.

Outros sobrinhos seguiram rumos diferentes, sempre em frente, sempre na direção de seus sonhos. Estão chegando lá.


Meus alunos se tornaram meus amigos e isso me faz seguir.

Meu maior incentivo?? É acompanhar cada resultado e torcer por:

Admares, Alessandras, Alexandres, Alines, Amandas, Andréias, Andrezzas, Anicks, Arianes, Biancas, Bias, Brunos, Calixtos, Carlas, Carlos, Carlinhos, Carolinas, Carolines, Cidas, Christians, Constanças, Cristianes, Daniéis, Danielles, Deises, Denises, Diogos, Drês, Dris, Eneas, Fabíolas, Fábios, Fernandas, Filipes, Flávios, Freds, Giselas, Giseles, Ghislaines, Glórias, Hannas, Henriques, Ianos, Ilanas, Isabéis, Isabelas, Israéis, Ivanas, Ivans, Izadoras, Jackies, Jacques, Janes, Joões, Jeans, Julianas, Kayenes, Kátias, Lenes, Léos, Lúcias, Lucianas, Ludymilas, Luízas, Luzias, Magnos, Marcelas, Marcélis, Marcellas, Marcelles, Márcias, Marcys, Marianas, Marias, Megs, Meles, Mônicas, Patrícias, Pattys, Paulos, Pedros, Pritzes, Rafas, Rafaéis, Raphas, Raquéis, Renatas, Renées, Robertas, Robertos, Rodrigos, Rogérias, Silvanias, Simones, Sérgios, Suelens, Suellens, Tassianas, Tatis, Vanessas, Vicentes, Wilsons....

Deus os abençoe.

não desista!

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